
João Mendes e Jorge Teixeira (Executive MBA da Escola de Negócios Caixanova) afirmam: “Devemos deixar cair a tentação de criarmos marcas próprias a todo o custo”.
O mercado interno é demasiado restrito para os que querem ganhar dimensão – referem João Mendes e Jorge Teixeira. Os dois gestores concluíram o International MBA da Escola de Negócios Caixanova que incide sobre a estratégia das empresas. Para João Mendes, a pequena dimensão do país e da maioria das empresas deve ser encarada como uma vantagem competitiva.Jorge Teixeira afirma que a existência de grandes comunidades portuguesas não tem favorecido a internacionalização das empresas portuguesas. No mercado vão surgindo boas oportunidades. A estabilidade e o crescimento económico de Angola tornam bastante apetecível o investimento de empresas portuguesas.
O mercado interno é demasiado restrito para os que querem ganhar dimensão – referem João Mendes e Jorge Teixeira. Os dois gestores concluíram o International MBA da Escola de Negócios Caixanova que incide sobre a estratégia das empresas. Para João Mendes, a pequena dimensão do país e da maioria das empresas deve ser encarada como uma vantagem competitiva.Jorge Teixeira afirma que a existência de grandes comunidades portuguesas não tem favorecido a internacionalização das empresas portuguesas. No mercado vão surgindo boas oportunidades. A estabilidade e o crescimento económico de Angola tornam bastante apetecível o investimento de empresas portuguesas.
Vida Económica - Tradicionalmente, existe uma abertura das empresas ao desenvolvimento de actividades no exterior? Qual é a vossa opinião sobre as oportunidades e desafios que a internacionalização coloca às empresas portuguesas?
João Mendes - Somos um país de descobridores, viajantes e finalmente emigrantes. Desde o império marítimo português (a partir de 1415) que conseguimos mudar o mundo vencendo os próprios medos. Estabelecemos rotas e entrepostos comerciais, traficámos escravos, explorámos povos inteiros, ou seja, fomos capazes do melhor e do pior. Mas, deixando de lado as considerações históricas, o que importa reflectir é se tradicionalmente somos um povo com aptidões para encarar com alguma facilidade e naturalidade a saída do pequeno rectângulo.A crescente concorrência a nível internacional em todos os mercados obriga as empresas a seguirem estratégias de crescimento fora do mercado interno. O próprio tecido empresarial português já conseguiu perceber que o mercado interno é demasiado restrito para os que querem ganhar dimensão, a dimensão necessária que lhes permita não ver os seus mercados engolidos pelos concorrentes. Mas será esse de facto um ponto fraco?Eventualmente, não será se as empresas se especializarem naquilo que sabem fazer e ao mesmo tempo apresentarem soluções de flexibilidade aos seus clientes. Nisso somos capazes de fazer bem, somos pequenos e essa pequena dimensão permite-nos ou deveria permitir-nos apresentar uma vantagem competitiva face aos demais países. Pequenas produções e de qualidade é connosco, essa deveria ser a nossa insígnia. E nunca é de mais sublinhar que a nossa indústria de pequena dimensão que continua a tentar competir pelo preço e sem carácter inovador ou tecnológico está, fatalmente, condenada a desaparecer. No sector têxtil, as empresas portuguesas foram procuradas pelos grandes agentes têxteis internacionais. A resposta foi de uma forma geral positiva. As nossas empresas ficaram conhecidas por serem capazes de garantir uma relação preço/qualidade de alto nível. Esse facto, porém, teve algum impacto negativo na indústria. Isto porque, embora as grandes marcas recorressem à produção portuguesa para os seus produtos espalhados pelo mundo, não facilitou o aparecimento de marcas nacionais fortes.Em suma, encaramos com alguma facilidade a nossa presença no exterior, mas urge rever a forma como essa presença tem sido feita. A nosso ver, devemos deixar cair a tentação de criarmos marcas próprias a todo o custo. Não temos notoriedade suficiente para nos afirmarmos mundialmente mas temos a qualidade que as grandes marcas querem e a flexibilidade para as pequenas produções. A qualidade, a flexibilidade, a existência de um tecido industrial de pequena dimensão aliadas às nossas características como povo — permitindo compreender e adaptar rapidamente o que o cliente pretende — constituem a verdadeira receita para o sucesso do desafio da internacionalização.
VE - A internacionalização pressupõe que as empresas cooperem mais entre si para reduzir os riscos e aumentar a eficácia no mercado externo?
João Mendes - Em qualquer processo de internacionalização é vital estarem asseguradas duas premissas que, não estando salvaguardadas, conduzirão ao insucesso do processo, pondo em causa o próprio futuro da organização: uma forte consolidação da empresa e dos seus produtos ou serviços no mercado interno e uma afectação eficaz de recursos económicos e humanos a esse fim. No fundo, trata-se de preparar a empresa (pessoas, meios financeiros, plano de marketing, produtos, processos) para o novo desafio. É aqui que, muitas vezes, quase sempre, a decisão de internacionalização da empresa bloqueia. A não existência de recursos suficientes leva a que, muitas vezes, se caia na tentação de estender a mão em busca de um subsídio. O que é um erro, porque, para garantir a elegibilidade desses apoios, muitas vezes não são seguidas as melhores opções. Mas, em bom rigor, actualmente existem, de facto, alguns empresários que querem dar um rumo diferente às suas organizações, indo à procura de novos mercados e não aguardando pelos subsídios para estabelecerem as suas prioridades estratégicas de crescimento. O tecido empresarial português, sendo constituído, na sua maioria por pequenas e médias empresas com recursos limitados, deverá rever o conceito de pesquisa de mercados e a forma como se apresenta neles. Porque não procurar empresas de média dimensão que não têm capacidade para as grandes encomendas no mercado asiático, e porque não fornecê-las com a sua própria marca? Desta forma garantem vendas e maximizam a sua capacidade produtiva. Trata-se cruamente, tão-somente, de conseguirmos sobreviver num mercado cada vez mais global. O pequeno empresário deverá obrigatoriamente aproveitar as missões empresariais, as feiras e exposições internacionais, estabelecendo uma meta de exploração de novos mercados, a visita a feiras levando amostras, seleccionando clientes a visitar e apresentando-se com o objectivo de estabelecer parcerias comerciais.Falar em cooperação para reduzir os riscos e aumentar a eficácia no mercado externo é, como se costuma dizer, “pôr o dedo na ferida”. É fundamental que os empresários ponham de lado algumas desconfianças e optem por esta solução. Existe, muitas vezes, ainda, o receio de que o parceiro retire maior vantagem da aliança, o que tem inviabilizado à partida qualquer hipótese de entendimento. Por exemplo, a constituição de uma aliança estratégica através de um consórcio de exportação poderia ser uma boa solução com vantagens assinaláveis: gastos repartidos pelos sócios, maior gama de produtos e maior poder de negociação.Um bom exemplo de colaboração foi a parceria que recentemente se estabeleceu entre produtores de vinho e a agência de promoção turística Adeturn, que permitiu a realização duma sessão do Grand Jury na região do Douro. Durante quatro dias foram testados mais de cem vinhos das principais regiões portuguesas. Este tipo de parcerias são o ideal, confundem-se com as acções de RP, são mais eficazes na criação de notoriedade. Esta parceria vínico-turística fará mais pela promoção do Douro e dos vinhos portugueses do que outras grandes iniciativas, muitas vezes pagas a “peso de ouro” e com resultados práticos bastante limitados.
VE - A aposta das empresas portuguesas deve dirigir-se mais a mercados de proximidade e, teoricamente, de menor risco, ou mercados emergentes, com maior risco, como Angola ou Brasil?
Jorge Teixeira - A União Europeia representou, em 2006, 77,2% das exportações e 75,5% das importações portuguesas. Sendo que os principais clientes de Portugal foram no mesmo período: a Espanha (27,4%), a Alemanha (13,1%), a França (12,4%) e o Reino Unido (7,1%). Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) representaram 4,4% e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), incluindo o Brasil, 5,1%. Estes números demonstram claramente que a existência de grandes comunidades portuguesas não tem favorecido a internacionalização das empresas portuguesas.A estabilidade e o crescimento económico de Angola tornam bastante apetecível o investimento de empresas portuguesas. As exportações para o Brasil tem aumentado ligeiramente mas o saldo é amplamente desfavorável para Portugal. Tendencialmente, o desejável é que o crescimento das exportações portuguesas se sustente fortemente em produtos com elevado valor acrescentado e com forte componente de inovação e tecnológica.Além disso, é necessário prestar atenção à modificação de padrões de consumo, por exemplo, Portugal exportou para a China vinhos no valor de 547 mil euros, entre Janeiro e Junho de 2007.
VE - Existem serviços dirigidos às empresas que querem expandir a actividade fora do país?
Jorge Teixeira - Actualmente, existem diversas entidades e organismos que prestam serviços dirigidos às empresas que pretendem iniciar ou expandir o processo de internacionalização. Quer sejam a AICEP, o IAPMEI, Associações Empresariais ou Câmaras de Cooperação Bilaterais. Entre os serviços disponibilizados encontram-se: acções de formação, missões empresariais, feiras e outros eventos no estrangeiro. O próprio modelo de diplomacia económica em que se utiliza a influência diplomática portuguesa e os recursos existentes do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Ministério da Economia para apoiar as empresas portuguesas. Existem, sem dúvida alguma, recursos suficientes afectos a este desígnio nacional que é o aumento da capacidade exportadora e que poderiam catapultar a imagem das empresas portuguesas e do país, mas então porque falha a promoção da marca Portugal? Falha claramente na resposta às seguintes perguntas: qual o segmento de clientes que queremos atingir? Estamos à procura da notoriedade do país, à semelhança das estratégias empresariais? Entendemos Portugal como uma empresa capaz de oferecer diferentes produtos e serviços aos seus clientes? Lamentavelmente, não. E esse é o nosso drama.
[Publicada em 20-03-2008]
[Publicada em 20-03-2008]
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